A Geometria Impossível do Corredor

O cheiro de mofo impregnado de cânfora nos atingiu assim que forçamos a tranca emperrada da porta principal do casarão. Erguida no topo de uma escarpa rochosa na Serra da Mantiqueira, a propriedade da nossa falecida avó parecia abandonada há décadas, embora o inventário registrasse sua morte recente. Helena passou o lenço pelo peitoril da janela carregado de fuligem, enquanto Marcos inspecionava a caixa de disjuntores no fundo do corredor. O objetivo era pragmático: listar os móveis antigos, organizar a documentação com o corretor da região e retornar à cidade antes do início das chuvas de inverno. Contudo, a estrutura de maçaranduba estalava em uma cadência ritmada, um estalo seco e constante que parecia vir de dentro das próprias vigas do assoalho.

A sensação de desconforto ganhou contornos físicos na primeira madrugada. Por precaução profissional, Marcos havia instalado uma câmera de monitoramento com sensor infravermelho no fundo do corredor superior. Às três e dezessete da manhã, o bipe estridente da central de alerta soou no térreo, onde ha tínhamos improvisado nossos colchões. Subimos a escada de madeira rangente com os nós dos dedos brancos de tensão. A lâmpada fluorescente do corredor oscilava em um zumbido grave, mas o vão dos quartos estava completamente deserto. Não havia portas abertas, frestas de vento ou vestígios de passagem humana.

Ao revisarmos o arquivo digital no computador de Marcos, o sangue do meu rosto pareceu drenar instantaneamente. A gravação mostrava uma figura masculina, alta, vestindo um sobretudo escura desgastada, parada exatamente diante da lente. O rosto não apresentava feição definível; era apenas uma cavidade acinzentada, uma borrão fosco onde deveriam estar olhos e boca. Durante cinco minutos e cinquenta e oito segundos, o homem permaneceu estático, sem qualquer oscilação de postura, movimento torácico de respiração ou piscar de pálpebras. Ele encarava a lente fixamente. No exato instante em que a gravação completou seis minutos, a imagem distorceu em ruído branco. Quando voltamos ao corredor para checar o local preciso onde a figura esteve, encontramos três gotas densas de um líquido escuro e viscoso, com cheiro acre de ferro oxidado, gotejando do teto.

Nas horas seguintes, a casa passou a agir com uma hostilidade velada. Copos de vidro limpos deixados sobre a mesa de jantar surgiam alinhados no parapeito do sótão. No início da tarde, ouvimos claramente a voz de Helena chamando meu nome do topo da escada. Era o mesmo tom agudo que ela usava quando éramos crianças, com a mesma pausa entre as sílabas. O sobressalto nos congelou, porque Helena estava ao meu lado na cozinha, segurando uma fita adesiva, com os olhos fixos na escada e a pele completamente pálida.

O Leme dos Ausentes

A confirmação do que enfrentávamos veio ao vasculharmos o fundo de um baú de cedro no escritório. Sob pilhas de recibos amarelados e certidões de compra de terras, encontramos o diário de bordo do nosso tio-avô, desaparecido no final da década de 1950 sem deixar rastro. A caligrafia elegante das primeiras páginas dava lugar, no final, a rabiscos frenéticos com tinta nanquim: ‘A entidade não expele os corpos que entram. Ela consome o conteúdo e conserva a casca para ocupar os cômodos vazios.’ A última anotação, datada do mesmo dia em que a família registrou seu sumiço, continha apenas uma frase repetida até a margem da folha: ‘Já sinto o cheiro da minha própria madeira.’

O pavor nos fez abandonar as malas no hall e correr para o carro de Marcos. Ligamos o motor, reduzimos a marcha e aceleramos pela única estrada de cascalho que cortava a serra em direção à rodovia estadual. O odômetro registrava a distância percorrida; o ponteiro do combustível caía no ritmo esperado e o motor respondia com força nas subidas íngremes. Dirigimos durante quarenta minutos em velocidade constante, cortando o nevoeiro denso que baixava pelas encostas. Os pinheiros à beira da pista passavam rápidos, iluminados pelos faróis altos.

No entanto, após dobrarmos uma curva fechada ao lado de uma rocha coberta de limo — o mesmo ponto de referência que havíamos cruzado ao chegar —, os faróis do veículo iluminaram a estrutura familiar de ferro enferrujado. O portão da propriedade da nossa avó surgia intacto à nossa frente, com o casarão ao fundo. Marcos deu marcha à ré, fez a volta cantando pneus e acelerou no sentido oposto por mais vinte quilômetros. Não havia desvios na estrada, entroncamentos ou bifurcações. Mesmo assim, dez minutos depois, as luzes de freio do utilitário voltaram a refletir no mesmo portão de ferro.

O motor morreu em um soluço mecânico. O silêncio que se seguiu no interior do carro era pesado, interrompido apenas pelo som do escapamento esfriando sob a névoa fria da serra. A porta da frente do casarão rangeu ao se abrir lentamente, embora o alpendre estivesse completamente vazio. Quando erguemos os olhos em direção ao segundo andar, vimos três figuras paradas atrás das vidraças do quarto principal. Uma delas usava a jaqueta amarela de Marcos; a segunda vestia o sobretudo escuro de Helena; a terceira tinha exatamente a minha altura e a minha postura. As sombras nos observavam do alto, absolutamente imóveis, aguardando pacientemente que entrássemos para ocupar seus lugares nas paredes.