A velha Mansão Blackwood erguia-se, imponente e decrépita, contra o crepúsculo púrpura que engolia a pequena cidade de Águas Sombrias. Suas janelas escuras, como órbitas vazias, pareciam observar a aproximação dos quatro jovens. Lucas, o líder autoproclamado e o mais cético do grupo, tinha a lanterna na mão, o feixe de luz dançando sobre a vegetação selvagem que engolia o caminho de entrada. ‘É agora ou nunca, gente’, ele disse, a voz cheia de uma bravata que não conseguia esconder a leve trepidação. A lenda local falava de desaparecimentos, sussurros no silêncio e, o mais inquietante, de um lugar onde ‘partes’ das pessoas simplesmente sumiam.
Sofia, sempre a mais cautelosa, abraçava-se, embora o ar de final de verão ainda fosse quente. Seus olhos grandes varriam os contornos sinistros da casa. ‘Não sei, Lucas. A vovó sempre dizia que aquela casa não é só assombrada, é… faminta.’ Gabriel, o brincalhão do grupo, deu um tapinha no ombro dela, forçando um sorriso. ‘Ah, qual é, Sofi! É só uma casa velha. Provavelmente cheia de ratos e poeira. O máximo que vamos pegar é uma alergia.’ Ele tentou rir, mas o som saiu um pouco abafado, traindo seu próprio nervosismo.
Mariana, por outro lado, estava completamente imersa em seu equipamento. Câmera digital na mão, gravador de áudio no bolso, e uma pequena mochila com itens de sobrevivência em sua costa. ‘Esta é a chance de documentarmos algo real, pessoal. Se as lendas forem verdadeiras, temos material para anos no meu canal de mistérios.’ Seu entusiasmo era contagiante, mas, no fundo, até ela sentia um calafrio percorrer sua espinha. A aura da casa era inegavelmente pesada, quase tangível, como um cobertor úmido e velho que sufocava o ambiente.
O portão de ferro forjado, enferrujado e retorcido, rangeu como um gemido agoniado quando Lucas o empurrou. O som ecoou na quietude da noite que caía, um prelúdio para o que estava por vir. O caminho de pedras estava coberto por musgo e folhas secas, e a porta principal, de madeira maciça, estava entreaberta, convidando-os para um abraço gélido. Um cheiro indistinto de mofo, terra molhada e algo mais difícil de identificar – um odor metálico, quase de sangue seco, pairava no ar.
Lucas foi o primeiro a entrar, a lanterna cortando a escuridão absoluta do vestíbulo. A poeira, espessa como neve, cobria tudo. Móveis vultosos jaziam sob lençóis brancos, espectros silenciosos de um passado luxuoso. O som de seus próprios passos, a cada rangido do assoalho, parecia amplificado, engolido e devolvido pela imensidão sombria do lugar. Sofia engasgou. ‘Parece que ninguém esteve aqui há séculos.’
‘Provavelmente não estiveram, Sofi’, Mariana murmurou, já filmando. ‘A última família que morou aqui, os Blackwood, sumiu sem deixar rastros. A casa foi abandonada logo depois.’ Eles se aventuraram mais fundo, explorando o salão principal. Lustres quebrados pendiam do teto, teias de aranha balançavam como cortinas de seda podre. Gabriel tentou descontrair o ambiente. ‘Olha só, Lucas, até parece a casa da sua avó, só que com mais charme.’ Um silêncio pesado o seguiu, e nem mesmo Lucas esboçou um sorriso. O clima estava denso demais para piadas.
Foi então que o primeiro som irrompeu o silêncio pesado. Um sussurro. Fraco, quase inaudível, vindo de algum lugar nas profundezas da casa. Sofia parou, os olhos arregalados. ‘Vocês ouviram isso?’ Lucas girou a lanterna, mas não havia nada. ‘Deve ter sido o vento, Sofi. Ou sua imaginação.’ Mariana, no entanto, já estava com o gravador ligado. ‘Eu acho que ouvi também. Uma voz… muito baixa.’
O Jogo da Entidade
Eles se moveram para a sala de estar, onde um piano de cauda, com as teclas amareladas e quebradas, jazia no centro. A luz da lanterna de Lucas revelou uma mancha escura e disforme no tapete persa desbotado, quase imperceptível. ‘O que é isso?’, Sofia perguntou, a voz mal saindo. Lucas se ajoelhou para examinar, a respiração presa. ‘Parece… resina. Ou algo parecido. Está seca, mas tem um brilho estranho.’
Enquanto Lucas e Sofia se debruçavam sobre a mancha, Gabriel esbarrou em uma pequena mesa lateral, e um vaso de porcelana com flores secas caiu, quebrando-se em mil pedaços no chão. ‘Merda!’, ele exclamou, agachando-se para recolher os cacos. Mas, quando ele estendeu a mão, seus dedos tocaram algo frio e pegajoso no tapete. Ele puxou a mão de volta com um grito sufocado. ‘Tem alguma coisa aqui! Meu Deus, o que é isso?’
Lucas virou a lanterna. A mancha estava lá, mas ao redor dela, onde Gabriel havia tocado, parecia haver um brilho tênue, quase imperceptível, que tremeluzia. ‘Não toque em nada, Gabriel!’, Mariana alertou, filmando a cena com uma mistura de fascínio e terror. ‘Isso é… é a substância que as lendas dizem que consome as coisas.’
O ar na sala ficou mais frio, um frio que não vinha de uma janela aberta, mas que parecia emanar das próprias paredes. Um novo sussurro, mais claro agora, ecoou de uma lareira escura. Não era em uma língua compreensível, mas a intenção por trás dele era inegável: uma malícia antiga e faminta. Gabriel, ainda de joelhos, tocou o próprio pulso. Seus olhos se arregalaram. ‘Minha pulseira! Onde está a minha pulseira?’ Era uma simples pulseira de couro que ele usava há anos, um presente de sua mãe. Não havia como ela ter caído ali e desaparecido sem um vestímetro. Ele jurava que a tinha no pulso momentos antes.
Um medo visceral se apoderou do grupo. Lucas tentou manter a calma. ‘Deve ter caído em algum lugar, Gabriel. Vamos procurar.’ Mas a convicção em sua voz era fraca. Sofia já estava à beira das lágrimas. ‘Não! Não é o vento! Não é a imaginação! Essa casa está nos pegando! Eu sinto!’
Enquanto discutiam, a voz de Mariana soou, aguda e aterrorizada. ‘Minha câmera! A lente!’ Todos se viraram para ela. Mariana segurava a câmera digital, mas a lente estava faltando. Não estava rachada, nem danificada, simplesmente… não estava lá. O corpo da câmera estava intacto, mas o anel da lente estava vazio, limpo, como se nunca tivesse existido. Não havia sinal dela no chão, nem em sua mochila. Era como se a lente tivesse sido aspirada para dentro da própria câmera, ou, pior, arrancada por uma força invisível.
O pânico real tomou conta deles. ‘Temos que sair daqui!’, Lucas gritou, a voz trêmula. Eles correram para o vestíbulo, mas a porta principal, antes entreaberta, estava agora firmemente fechada. Mais do que isso, parecia solidificada, parte da própria parede de pedra. Lucas tentou forçá-la, batendo com os ombros, mas era inútil. A madeira, antes podre, agora parecia impenetrável. Os sussurros aumentaram, não mais fracos e distantes, mas como um coro de vozes distorcidas que pareciam vir de todas as direções ao mesmo tempo. E, desta vez, as vozes pareciam chamá-los, cada uma com um nome diferente.
O Preço da Curiosidade
Eles recuaram, o terror estampado em seus rostos. ‘Não pode ser!’, Sofia chorou, suas pernas fraquejando. ‘É um truque! Uma ilusão!’ Mas a falta da pulseira de Gabriel e da lente de Mariana eram provas concretas, irrefutáveis. A casa não estava apenas assustando-os; estava os despojando. A entidade, fosse o que fosse, estava colecionando.
Lucas apontou a lanterna para o andar de cima, para a escuridão que se estendia para o topo de uma escadaria sinuosa. ‘Temos que encontrar outra saída. Talvez uma janela no andar de cima. Temos que tentar.’ Impulsionados pelo medo, eles subiram os degraus rangentes, cada passo uma oração silenciosa. O ar se tornou mais denso, mais carregado, e o cheiro metálico se intensificou, misturado agora com um odor adocicado e nauseante, como de carne em putrefação. As paredes pareciam fechar-se sobre eles, e as sombras dançavam de forma mais agressiva.
No topo da escada, um corredor longo e escuro se estendia. Portas alinhadas em ambos os lados, todas fechadas. ‘Qualquer uma delas’, Gabriel sibilou, os olhos arregalados, o corpo tremendo. Eles tentaram a primeira porta. Estava trancada. A segunda. Trancada. A terceira. Abriu-se com um rangido lento e agoniado, revelando um quarto escuro e abafado.
Lucas entrou primeiro, a lanterna varrendo o cômodo. Era um quarto de criança, congelado no tempo. Um berço em um canto, um cavalo de balanço no meio, e prateleiras cheias de bonecas antigas, algumas sem olhos, outras com a porcelana rachada. O mais perturbador, porém, era um pequeno vestido branco pendurado em um cabide, impecável, mas com um laço de fita vermelha que parecia fresco demais, vibrante demais para a idade do lugar. E no berço, um lençol imaculado cobria algo. Um contorno macabro, quase humano, projetava-se sob o tecido.
Sofia soltou um grito abafado. ‘Não toque nisso, Lucas! Não toque em nada!’ Mas a curiosidade mórbida já havia se apossado dele. Com as mãos tremendo, Lucas estendeu a mão e puxou o lençol. O que revelou fez seus corações pararem. Não era um corpo, nem uma boneca. Era uma coleção. Milhares de… partes. Pequenos objetos, pedaços indistinguíveis de matéria orgânica e inorgânica. Um pedaço de madeira esculpida, um botão, uma mecha de cabelo castanho, uma unha humana, um fragmento de tecido, um pedacinho de osso polido. E entre eles, brilhando fracamente com a mesma substância pegajosa que viram no tapete, havia um pequeno pedaço de couro – inconfundivelmente, um fragmento da pulseira de Gabriel. E ao lado, um minúsculo parafuso e um pedaço de vidro, reconhecíveis como parte da lente da câmera de Mariana.
Os sussurros agora eram um coro ensurdecedor, vindos de dentro das paredes, do chão, do teto. As vozes pareciam zombar, saborear o terror. E então, um som diferente. Um arrastar pesado, lento, vindo do final do corredor. O som de algo grande, mas que parecia estar se movendo com uma dificuldade arrepiante, como se carregasse um peso inimaginável. ‘Está vindo!’, Gabriel gritou, a voz aguda de pavor. ‘Corre! Pelo amor de Deus, corre!’
Eles saíram tropeçando do quarto, correndo pelo corredor escuro. Lucas ainda segurava a lanterna, mas o feixe tremia incontrolavelmente. O arrastar se intensificou, e agora havia um som de estalo, como de ossos quebrando. Era a casa, era a própria entidade, movendo-se, contorcendo-se, vindo buscá-los. Eles chegaram ao final do corredor, que se transformava em outro, igualmente escuro. E ali, no ponto de encontro, estava a fonte do som. Uma massa escura, informe, que se estendia do chão ao teto, pulsando com uma luz fraca e esverdeada. Não tinha olhos, nem boca, mas parecia observá-los, a massa contorcendo-se como uma ameba gigante. E então, ela estendeu o que parecia ser um apêndice, longo e gelatinoso, mas que terminava em uma forma indistinta de… mãos. Não mãos humanas, mas garras disformes que se agitavam no ar, procurando, tateando.
Lucas, em um surto de adrenalina, jogou a lanterna contra a criatura. O objeto bateu na massa, fazendo-a recuar momentaneamente com um silvo agudo. A luz da lanterna se quebrou, mergulhando-os na escuridão quase total. ‘Pela janela!’, Mariana berrou, apontando para uma janela de baía que eles não tinham notado, uma fresta de luz da lua filtrando-se por ela. Eles correram, empurrando uns aos outros. A janela estava emperrada, mas Lucas e Gabriel usaram toda a sua força, quebrando o vidro e abrindo-a com um gemido de madeira velha. O ar fresco da noite foi um choque, mas o cheiro da entidade, agora ainda mais potente, parecia ter impregnado suas roupas.
Sofia pulou primeiro, caindo na grama alta e macia lá fora. Mariana a seguiu. Lucas e Gabriel estavam prestes a pular quando o apêndice da criatura os alcançou, uma das garras disformes envolvendo a perna de Gabriel, puxando-o para trás. Gabriel soltou um grito de dor excruciante, lutando desesperadamente. Lucas o agarrou, puxando com todas as suas forças. O puxão foi violento, e a perna de Gabriel escorregou da garra, mas não sem antes um pedaço de sua calça e… um pedaço de sua panturrilha. Ele caiu do lado de fora, a perna sangrando profusamente, mas livre. A criatura silvou de frustração, recolhendo-se novamente nas sombras da casa, um fragmento de carne humana ainda preso em sua garra, agora retraindo-se com a lentidão de um predador satisfeito.
Eles correram pela propriedade, sem olhar para trás, aterrorizados demais para sentir a dor ou o cansaço. A cidade, com suas luzes distantes, parecia um refúgio inalcançável. Quando finalmente chegaram à estrada principal, o sol já começava a despontar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa. Mas para eles, o mundo havia sido para sempre tingido de escuridão. Gabriel foi levado às pressas para o hospital, a ferida na perna inexplicável, como se algo a tivesse… arrancado com precisão cirúrgica. Os médicos ficaram perplexos. Mariana nunca mais tocou em uma câmera, e sua voz, antes cheia de vida, estava agora permanentemente rouca de tanto gritar naquela noite. Sofia, por sua vez, nunca mais conseguiu dormir sem as luzes acesas, atormentada pelos sussurros que pareciam segui-la para casa.
Lucas, o cético, foi quem mais mudou. Ele tentava convencer a si mesmo de que tudo fora um truque da mente, uma ilusão coletiva. Mas, às vezes, quando ninguém estava olhando, ele tateava o próprio pulso, onde a cicatriz de uma pequena verruga que ele tinha desde a infância… simplesmente não estava mais lá. Ele sabia, com uma certeza fria e nauseante, que a Casa das Mãos Ausentes não era apenas um lugar. Era uma entidade, um colecionador de partes, e que, embora tivessem escapado com suas vidas, todos haviam deixado um pedaço de si mesmos para trás. E o pior de tudo: a casa ainda estava lá, intacta, esperando a próxima curiosidade juvenil, a próxima ‘peça’ para sua macabra coleção.
