Três Batidas na Madrugada

A poeira amarelada impregnava as cortinas de linho e subia em espirais a cada passo de Daniel sobre o soalho rangente. A polícia fora rápida e pragmática no laudo: parada cardiorrespiratória por causas naturais. Sem marcas de arrombamento nas trancas de ferro, sem desordem nos móveis, sem vestígios de violência no corpo do velho Otávio. Para as autoridades do município, o caso estava encerrado. Para Daniel, contudo, o silêncio que pesava sobre aquele sítio isolado no interior trazia uma densidade desconfortável, como se o próprio ar recusasse a sair da casa.

Enquanto arrumava as gavetas do armário da sala, juntando jornais velhos e caixas de remédios vencidos, os dedos de Daniel esbarraram em um objeto metálico e frio. Era um gravador portátil de fitas cassete, prateado e encardido pelo tempo, com o botão de reprodução parcialmente emperrado. Uma fita preta sem etiqueta já repousava no compartimento. Daniel apertou o mecanismo, esperando ouvir lembretes banais sobre a plantação de milho ou desabafos de um homem solitário.

O ruído branco da fita preencheu o cômodo. Nos primeiros registros, a voz pausada do pai comentava sobre a chuva no telhado de zinco, o canto dos grilos e a rotina do campo. Contudo, conforme os arquivos avançavam, a entonação do idoso mudava drasticamente. A serena monotonia dava lugar a uma respiração curta, entrecortada por silêncios angustiantes e engolimentos em seco.

A partir do quinto registro, a anomalia estabeleceu um padrão rigoroso. A voz trêmula de Otávio anunciava a hora com precisão obsessiva: três horas e quatorze minutos da manhã. Logo após o anúncio, o microfone captava três pancadas secas contra a madeira da porta da frente. O som ecoava duro, como juntas de ossos golpeando a compensado pesado. O pai nunca respondia; mantinha-se em um silêncio absoluto até que a fita cortasse.

Nas gravações posteriores, a ameaça escalou. As três batidas deram lugar ao ranger constante de cascalho sob passos pesados ao redor da estrutura da casa. Mais tarde, uma faixa captou um arfar úmido e ruidoso colado à folha de vidro da janela do quarto, lembrando o ar sendo forçado através de pulmões cheios de fluido. Os relatos de Otávio reduziram-se a sussurros quase inaudíveis, sufocados pelo pavor de que qualquer ruído revelasse sua posição exata na escuridão.

O penúltimo registro capturou o ápice daquele pânico claustrofóbico. O som do bater de dentes do velho quase cobria seu sussurro aflito diante do microfone. Ele relatava que aquilo do lado de fora deixara de apenas caminhar e passara a modular som, ajustando a frequência até reproduzir com perfeição a sua própria voz. A coisa o chamava pelo nome do outro lado da parede. A gravação terminava com o rangido longo e estridente das dobradiças da porta do quarto se abrindo devagar na penumbra.

O Arquivo Impossível

Daniel segurava o gravador com tanta força que as juntas de seus dedos ficaram esbranquiçadas. Suor frio escorria por sua nuca, arrepiando os pelos dos braços. A casa estava mergulhada na luz fria do final da tarde, mas o ar no cômodo parecia ter perdido vários graus de temperatura. A ideia de que seu pai passara suas últimas semanas mergulhado naquele pavor absoluto fazia suas entranhas se contorcerem em nós agudos.

Decidido a levar o aparelho para a delegacia e exigir a reabertura da investigação, Daniel pressionou o botão para ejetar o compartimento plástico. O mecanismo estalou com um som metálico, mas o pequeno contador de números continuava a girar. As engrenagens internas prosseguiam movendo a fita magnética sem parar.

Um vinco de confusão formou-se em sua testa. Seu pai falecera há mais de três meses. O sítio permanecera trancado com correntes e cadeados pesados desde a remoção do cadáver. Ninguém mais pisara naquela propriedade isolada. Não havia energia elétrica ativa no local, e o aparelho dependia exclusivamente de duas pilhas antigas que deveriam ter esgotado a carga há muito tempo.

Com as mãos instáveis, ele removeu a fita e virou a carcaça de plástico escuro. No carretel, a fita continuava rodando, avançando milímetro a milímetro. Havia um arquivo novo gravado no marcador, gerado exatamente naquela madrugada, mesmo com o sítio completamente deserto.

Um arrepio afiado percorreu sua espinha. O silêncio ao redor tornou-se absoluto; até o vento que curvava a copa das árvores do lado de fora parecia ter cessado de repente. Sem conseguir conter a urgência de decifrar o mistério, Daniel pressionou a tecla de reprodução mais uma vez.

A estática do alto-falante perfurado jorrou pela sala. Não havia som de vento, chuva ou passos na terra. Havia apenas a captação de uma respiração lenta, calma e absurdamente próxima do microfone, como se a fonte sonora estivesse colada ao aparelho durante a gravação.

Então, uma voz tomou o ambiente. Não era a fala rouca do idoso falecido. A frequência, o timbre e a entonação eram idênticos aos que Daniel usava diariamente. Era a sua própria voz saindo do gravador velho, pronunciando cada sílaba com uma calma pausada e desconcertante:

— Se você está ouvindo isso… não olhe para trás.

O áudio da fita terminou com um estalo seco. No mesmo instante, atrás dele, o assoalho de madeira do corredor rangeu sob o peso de um passo lento e descalço.