A Contagem Noturna
O mofo no ar de Pedra Funda tinha o mesmo gosto da poeira de tijolo moído que cobria a Rua do Amparo. Parado sob a luz amarelada do único poste da rua, senti o metal frio do relógio de bolso pressionar a palma da mão úmida. Faltavam três minutos para a meia-noite. À minha frente, a estrutura do antigo Edifício Vilanova erguia-se contra o céu sem estrelas.
Durante o dia, o prédio era uma ruína de três andares, com fachada descascada e exatas vinte e seis janelas com venezianas podres. As crianças aprendiam a somar apontando para a fachada: oito no primeiro andar, nove no segundo, nove no terceiro. Vinte e seis frestas cegas. Contudo, quando o relógio da matriz batia doze badaladas, a alvenaria parecia se dilatar.
O cheiro de umidade atingiu minhas narinas quando o ponteiro travou no topo. Comecei a recontar. Oito no térreo. Nove no segundo. Por fim, olhei para o topo.
Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. E, recuada a poucos centímetros da cornija, onde antes só existia tijolo exposto, lá estava ela.
A vigésima sétima janela.
A moldura era de ferro carcomido pela ferrugem. Por trás do vidro embaçado, uma luz fraca, amarelada como gordura de vela, cortava a escuridão do último pavimento. O estômago embrulhou em um espasmo seco. Ajustei o foco dos olhos na silhueta projetada contra aquela iluminação doentia.
Havia alguém parado ali.
A figura permaneceu imóvel, com a testa quase encostada no vidro. Não era um vulto difuso. Era uma presença sólida, alta, trajando uma camisa escura de colarinho puído. Mesmo à distância, a nitidez do contorno me fez dar um passo involuntário para trás.
Lembrei-me das conversas na mercearia do Seu Geraldo, do aviso da dona da pensão: se vir a janela vinte e sete, siga andando. Se olhar, não pare. E nunca levante a mão.
O Reflexo na Vidraça
A figura atrás do vidro não piscava. Não havia o movimento ritmado indicando respiração. Era como um retrato esquecido em um quadro de poeira.
Apertei os olhos, tentando identificar o rosto. A luz amarela refletia no vidro, revelando maçãs do rosto proeminentes, lábios finos e esticados, e olhos arrodeados por olheiras tão profundas que pareciam dois buracos na pele pálida. Meu coração saltou quando reconheci a jaqueta de couro surrada com o emblema rasgado no ombro.
Era o filho do funileiro. O rapaz que sumira três semanas antes, deixando a oficina aberta e as ferramentas jogadas pelo chão.
A pele da nuca arrepiou-se. O desespero nos olhos daquele jovem era palpável, uma súplica silenciosa atrás do vidro. Ele encarava a rua vazia com a rigidez de um cadáver fresco, mas a boca entreaberta parecia articular uma palavra que o vento recusava carregar.
Um impulso irracional de empatia tomou conta dos meus músculos. O tremor nas minhas mãos tornou-se uma urgência avassaladora de estabelecer contato, de avisar que ele fora visto. Antes que a razão travasse o corpo, meu braço direito começou a subir.
Elevei a mão até a altura do peito, os dedos abertos no espaço gelado entre a rua e o edifício.
Naquele milissegundo, a figura do outro lado reagiu.
O movimento não foi fluido; foi um estalo mecânico, seco, como o salto de uma mola enferrujada. O braço do rapaz ergueu-se espelhando o meu. Os dedos pálidos tocaram o vidro por dentro, deixando uma mancha na vidraça. Ele acenou de volta. Um movimento lento, ritmado.
Um arrepio desceu como lâmina pela minha espinha. Puxei o braço para junto do corpo e dei dois passos desordenados para trás, tropeçando no meio-fio.
Lá em cima, o vidro da vigésima sétima janela estalou. Uma fissura cruzou a luz amarelada. A iluminação piscou e apagou-se em um estalo surdo. A fachada mergulhou na escuridão.
Quando o sol rasgou a névoa matinal sobre Pedra Funda, voltei à Rua do Amparo. Levantei a cabeça e contei as janelas expostas. Oito no primeiro. Nove no segundo. Nove no terceiro. Vinte e seis. A parede de tijolos do topo estava lá, lisa, coberta de líquens secos.
Caminhei até a mercearia do Seu Geraldo. O velho limpava o balcão com um pano encardido. Ao notar minha presença, parou o movimento. Seu olhar demorou-se na minha postura rígida, desceu para os meus dedos trêmulos e subiu para o meu rosto.
Ele não perguntou nada. Apenas suspirou e apontou com a cabeça para a fachada no fim da rua.
— Se passar por lá hoje à noite — disse Geraldo, a voz baixa —, não perca tempo contando.
Ele torceu o pano com força, fazendo pingar água cinzenta no balde.
— Um rapaz passou lá antes do amanhecer. Disse que a janela vinte e sete já estava escura. Sem luz, sem ninguém atrás do vidro.
Olhei para minha mão, sentindo a pele dos dedos estranhamente dormente e fria, como se a circulação tivesse sido interrompida para sempre.
