O Som da Água Corrente

A lente do celular refletia o condensado de gordura e poeira na cerâmica verde-oliva. No canto da tela, a luz vermelha de gravação piscava na cadência fúnebre de um pulso moribundo. Éramos apenas três dentro do banheiro feminino do terceiro andar: eu, Lucas segurando o tripé, e Mateus no último boxe. Cheirava a sabão sulfuroso e mofo antigo, um vapor espesso que parecia escorrer direto das tubulações enferrujadas desativadas nos anos noventa. A premissa era ridícula, o tipo de conteúdo caça-cliques do nosso canal. Repetir o nome da antiga funcionária três vezes, acionar a descarga quebrada e esperar com as luzes apagadas. Todos na cidade conheciam a história: a mulher de avental sujo que teria morrido durante uma reforma em 1984. No entanto, quando as lâmpadas do corredor piscaram e apagaram de vez, o riso sarcástico de Mateus travou na garganta. O som começou não nos espelhos, mas no encanamento por baixo de nossas solas. Um borbulhar denso, grosso, como se algo subisse contra a gravidade pelas vísceras do edifício. Lucas baixou a câmera, os dedos trêmulos escorregando no telefone. Quando a luz da lanterna cortou a escuridão, a cabine onde Mateus estava continuava fechada por dentro. Ouvimos o estrondo seco da tranca deslizar sozinha. O compartimento estava completamente vazio. Nenhuma poça de sangue, nenhum vestígio de luta ou fuga. Apenas o sapato esquerdo dele, encharcado por uma água turva com cheiro acre de esgoto e alvejante. Dois dias se passaram sem que a polícia encontrasse qualquer rastro. A escola continuou operando sob um sussurro sufocado de pânico. Foi na manhã de terça-feira que os fenômenos começaram a se manifestar diretamente para mim. Não havia vultos saltando de cantos escuros; a aflição era sutil e cirúrgica. Quando fui lavar as mãos no banheiro do térreo durante o intervalo, a torneira de bronze emperrada girou sozinha. Uma fumaça morna subiu da pia, embaçando o espelho oxidado. Lentamente, como se um dedo invisível raspasse a umidade acumulada no vidro, letras trêmulas se formaram no reflexo: ELES COBRIRAM A PAREDE. Abaixo do texto, refletido atrás do meu ombro esquerdo, vi a silhueta. Não era uma garota jovem, nem a aberração loira dos contos de fofoca. Era uma figura magra, curvada sob o peso de panos pesados e encharcados. Seus cabelos compridos e grisalhos grudavam na testa pálida, caindo sobre órbitas vazias das quais manava a mesma água barrenta do encanamento. Mas o mais aterrorizante era o sorriso: uma rasgadura horizontal e desprovida de dentes, esticada até as orelhas em uma rigidez estática. Girei o corpo imediatamente. O corredor do banheiro estava deserto. Apenas o gotejar ritmado da torneira ecoava.

O Segredo Sob a Argamassa

Determinado a entender o que Mateus havia despertado, passei a noite invadindo o porão da diretoria. Entre pastas amareladas e fichas cadastrais cobertas por cupins, encontrei os registros de manutenção de 1984. O nome dela não constava na lista de boatos dos estudantes. Chamava-se Helena. Não era uma lenda urbana, mas uma trabalhadora terceirizada cujo contrato fora rescindido abruptamente no mesmo mês em que a nova ala da instituição fora inaugurada. Havia uma nota fiscal de alvenaria com data adulterada. Uma fatura urgente para cobrir com tijolos e azulejos uma antiga tubulação desativada atrás do sanitário do terceiro andar, emitida na manhã seguinte ao desaparecimento relatado nos jornais da época como abandono de emprego. Com um pé de cabra furtado da manutenção, subi novamente ao terceiro andar sob a penumbra da meia-noite. O cheiro de decomposição e soda cáustica estava dez vezes mais forte, impregnando a minha garganta como poeira de cal. Aproximei-me da parede do fundo do último boxe, onde os azulejos verde-oliva pareciam ligeiramente desalinhados do restante da estrutura. A cada golpe do metal contra a cerâmica, um eco oco respondia de dentro da alvenaria. Pedaços de reboco podre caíam no chão, revelando não a tubulação descrita nos mapas oficiais, mas uma cavidade estreita, vertical e escura, com pouco mais de trinta centímetros de largura. O espaço fora projetado não para o transporte de água, mas para esconder aquilo que a direção do colégio jamais poderia permitir que viesse à tona. A lanterna iluminou o interior do nicho. Lá dentro, em pé, travado entre o concreto e a alvenaria, estava o esqueleto mumificado de Helena. Suas mãos secas ainda agarravam os canos internos, e as pernas estavam presas por uma camada de cimento seco jogado às pressas enquanto ela ainda respirava. Ao lado de seus restos mortais, inclinado na mesma postura ereta e apertada, vi o corpo de Mateus. Seus olhos fitavam o teto, congelados em um pavor absoluto, e da sua boca aberta saía o cabo do tripé da nossa câmera. Um estalo de porcelana ecoou às minhas costas. Girei devagar. A porta do banheiro havia se fechado sozinha. No espelho grande acima do lavatório, a umidade voltou a condensar rapidamente. O reflexo não mostrava mais a minha imagem segura no ambiente de azulejos. Mostrava o interior daquela fenda estreita na parede, sob o ponto de vista de quem estava trancado lá dentro. Minhas mãos correram para o próprio pescoço quando senti a consistência fria e viscosa de panos molhados envolvendo minhas vértebras. A figura curvada ao meu lado no espelho não olhava para o ambiente; olhava para mim com aquele sorriso rasgado sem fim. No vidro condensado, uma última frase começou a se desenhar antes que a lanterna caísse das minhas mãos: SEU NOME É O PRÓXIMO NA LISTA DE CHAMADA.