Os Minutos Iniciais
É difícil começar a contar isso. Sinto que as palavras se desfazem na boca, como areia. E a verdade, eu nem sei mais se o que lembro é real. Mas tenho que tentar, talvez alguém leia e diga, ‘aconteceu comigo’, ou talvez eu só precise colocar isso para fora antes que me consuma por completo. Meu nome? Não importa. Onde moro? Um apartamento antigo, no terceiro andar, num bairro que é uma colcha de retalhos de passado e presente. Me mudei há uns oito meses. Era para ser um recomeço. Não foi. Foi o começo de outra coisa. De um inferno digital.
Tudo começou com o despertador. Um modelo simples, de mesa, aqueles que projetam a hora na parede e têm números grandes e vermelhos. Nada demais. Comprei usado, numa feirinha de bairro. Gostei porque a projeção no teto era prática, não precisava virar a cabeça para ver as horas no escuro. As primeiras semanas foram normais. Acordava, ia trabalhar, voltava, dormia. A rotina morna de sempre. Mas aí, as coisas começaram a mudar. Pequenos detalhes, sabe? No início, você ignora, pensa que está cansado demais, que é distração. Quem nunca perdeu a noção de uma hora ou outra?
A primeira vez que percebi algo estranho foi quando acordei com a luz do sol batendo na minha cara. O despertador deveria ter tocado às seis da manhã. Olhei para o teto, onde o vermelho digital deveria marcar 06:00, e vi… 04:37. Quatro e trinta e sete da tarde. Impossível. Eu tinha despertado com o sol, e a janela do quarto só pegava sol de manhã. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira. Ele marcava a mesma coisa: 16:37. Pisquei. Esfreguei os olhos. Meu corpo parecia ter dormido demais, pesado, mas não era como se eu tivesse virado a noite. O estômago roncou, e uma fome esquisita me invadiu. Peguei o celular. Era 07:15 da manhã. O relógio estava errado. Completamente errado. Eram quase onze horas de diferença. Desliguei o despertador, tirei da tomada, liguei de novo, acertei a hora. Pensei, ‘aparelho velho, deve estar com defeito’. Esqueci.
Mas não esqueci por muito tempo. Dias depois, o mesmo padrão. Acordo. Sinto um peso no corpo, uma exaustão que não deveria existir. Olho para o despertador. Desta vez, ele marcava 01:13. Da manhã. Minha hora de despertar era 06:00. O sol já estava entrando, filtrado pelas cortinas. Olhei para o celular. 07:05. Quase seis horas de diferença para trás. A sensação de tempo perdido, de que eu havia mergulhado num sono profundo demais, estava se tornando comum. Comecei a me sentir… sujo. Como se cada vez que o relógio errava, ele estivesse roubando um pedaço do meu tempo, ou talvez um pedaço de mim. A princípio, tentei substituir. Peguei um despertador antigo de ponteiro, a pilha. Deixei o digital desligado na gaveta. Queria paz.
Não adiantou. A sensação de esgotamento continuou. E uma noite, sonhei com números vermelhos. Flutuavam no escuro, se contorcendo, se rearranjando em sequências que não faziam sentido, mas que pareciam me chamar. Acordei, suando frio. O relógio de ponteiro marcava a hora certa. Mas a parede, a parede… lá estava a projeção vermelha, fraca, quase invisível, mas lá. Marcava 00:00. Zero. Eu havia tirado o despertador digital da tomada. Estava na gaveta, desligado. Levanto, as pernas bambas. Abro a gaveta. Lá estava ele, morto, sem pilhas, sem cabo de força. Mas na parede, os números sumiram lentamente, como fumaça, deixando um rastro gélido no ar. Foi quando o medo, o verdadeiro medo, começou a se instalar. Não era um defeito no aparelho. Era outra coisa. Algo que não deveria existir.
O Despertar da Anomalia
Eu passei a ter medo de dormir. Cada noite era uma descida para um abismo de incerteza. Não sabia que horas acordaria, ou se acordaria sentindo que horas eram. Instalei câmeras de segurança no quarto, dessas baratas de Wi-Fi, apontadas para a mesa de cabeceira e para a parede. Queria registrar. Queria provar que não estava louco. As primeiras noites, nada. O relógio de ponteiro no lugar. A parede escura. Mas a sensação de estar sendo observado, de que algo estava esperando, era quase palpável. Uma vez, jurei ter ouvido um clique suave, como um dígito mudando, vindo da gaveta onde o despertador digital estava guardado. Abri a gaveta, coração na boca. Nada. Ele estava lá, inerte, sua tela preta, sem brilho.
Até que uma noite, finalmente, a câmera pegou. Não foi nada grandioso, nada de um monstro ou uma mão espectral. Foi sutil, e por isso, ainda mais aterrorizante. No vídeo, que assisti mil vezes, a parede está escura. Meu despertador de ponteiro funciona normalmente. Mas num piscar, bem no canto da imagem projetada da câmera, aparece uma mancha avermelhada, fraca, quase um reflexo. Ela cintila, forma-se em um ‘0’ e depois um ‘4’. Em seguida, desaparece. Exatamente no momento em que a luz do sol da manhã começa a entrar pelas cortinas, quase como se o ‘04’ estivesse reagindo à luz, se retirando. Um zero e um quatro. Não era uma hora completa. Era um fragmento. Uma pequena fenda.
Eu não dormi naquela noite. Nem na seguinte. E nem na outra. A exaustão se tornou meu estado normal. Meus olhos ardiam. Meu corpo doía. Mas cada vez que eu fechava os olhos, eu via aqueles números vermelhos. Eles não flutuavam mais. Eles pulsavam, como um coração digital, e pareciam gritar em minha mente, tentando me forçar a algo. Foi então que fiz uma coisa estúpida. Tirei o despertador digital da gaveta. Coloquei-o de volta na mesa de cabeceira. Ele estava frio. Sem bateria, sem cabo. Tentei ligar. Nada. Por que fiz isso? Não sei. Talvez eu estivesse desesperado por respostas, ou talvez a entidade, seja lá o que for, estivesse me manipulando. Minha mente já não era a mesma. Eu estava irritado, paranoico. Via sombras se movendo no canto do olho, ouvia sussurros indistintos no limite da audição.
Naquela mesma noite, dormi. Um sono forçado, pesado, como se alguém tivesse injetado um tranquilizante em mim. E sonhei. Sonhei que estava em um cômodo escuro, cheio de relógios de todos os tipos. Digitais, de ponteiro, de bolso, de parede. Todos marcavam horas diferentes, aleatórias. E no meio, havia uma figura. Não era bem uma figura. Era uma distorção no ar, como o calor subindo do asfalto quente. E daquela distorção, vinha um som. O som de muitos cliques de dígitos, rápidos, contínuos, como um relógio quebrado. E então, uma voz. Não uma voz com palavras, mas uma vibração que se instalava nos meus ossos e dizia, sem som: ‘Meu é o tempo que você perde. Meu é o agora que você não vive’. Acordei num sobressalto, o corpo encharcado de suor.
Olhei para o teto. Lá estava a projeção. Mas não era 06:00. Não era 04:37. Era algo que nunca vi. Uma sequência de quatro dígitos que mudava rapidamente, como se estivesse testando combinações, mas nunca parando. 73:19. 00:00. 12:89. E entre cada mudança, um flash, uma imagem rápida. Um rosto distorcido. Uma paisagem desconhecida. Minhas próprias mãos envelhecidas. O despertador digital na mesa de cabeceira, sem estar conectado, sem bateria, estava emitindo um brilho vermelho fraco. Os números na tela escura dançavam, idênticos aos que se projetavam no teto. Mas era impossível. Eram os meus minutos roubados. E eu podia senti-los. Eu podia sentir o tempo escorrendo, sendo manipulado, me deixando mais e mais vazio.
O Agora Roubado
A partir daquele momento, a realidade se tornou líquida. O despertador digital na mesa nunca mais se apagou. Mesmo sem energia. Ele estava sempre lá, pulsando uma luz vermelha fraca, os números mudando em um fluxo constante de impossibilidades. Eu tirei o relógio da mesa de cabeceira e o joguei na parede. Ele se espatifou. Os pedaços plásticos voaram. Mas o brilho vermelho não parou. Os números continuaram a dançar nos fragmentos espalhados pelo chão, cada pedacinho da tela agora exibindo uma sequência diferente. 08:00 em um. 23:45 em outro. Eu estava perdendo. Estava perdendo a minha mente. Ou estava perdendo o tempo.
Comecei a ver flashes de momentos que eu não vivi, ou que talvez vivesse no futuro, ou no passado. Uma conversa com um amigo que eu não via há anos, de repente eu estava no meio dela, rindo, mas o som era abafado, distante. Um cheiro de comida caseira que me lembrava a casa da minha avó, forte e real, no meio da minha sala vazia. Era como se a entidade estivesse me mostrando fragmentos de tempo, aleatoriamente, para me desorientar, para me convencer de que meu próprio tempo não era mais meu.
Uma manhã, acordei com um barulho. Um som de algo caindo na cozinha. Levantei, o corpo pesado, a mente nublada. Fui até lá. Minha caneca de café preferida estava no chão, estilhaçada. Eu tinha certeza que a havia lavado e guardado no armário na noite anterior. Mas havia cacos. No entanto, o chão estava limpo, não havia vestígios de café ou água. Era apenas a caneca, partida. E na parede acima do balcão, onde a luz da janela bateu, por uma fração de segundo, vi a projeção. Não era uma hora. Eram as letras. ‘AGORA’. Depois, sumiu. E eu soube. O tempo não estava apenas sendo roubado. Ele estava sendo reescrito. E eu estava preso nesse loop, nesse agora sem sentido.
Eu não consigo mais sair do apartamento. Não que eu não tente. Eu tento. Mas cada vez que chego à porta, a maçaneta parece quente demais, ou fria demais. As horas no meu celular pulam de forma inexplicável. Às vezes, saio, ando algumas quadras e, de repente, estou de volta na frente do meu prédio, sem memória de ter voltado. Como se o tempo tivesse me puxado de volta para dentro. Eu não sei se estou escrevendo isso em um caderno real, ou se estou digitando em um teclado que só existe na minha cabeça. Não sei se alguém vai ler. O importante é que a mão dói. E o relógio na parede, formado pelos cacos do meu despertador, continua a pulsar. 00:00. 00:00. 00:00. Não são zeros. São olhos. Olhos vermelhos me observando. Sempre no agora, um agora eterno, roubado. O tempo se tornou meu carcereiro. E eu sou apenas o seu prisioneiro, esperando o próximo fragmento ser exibido.
