O Espelho Quebrou a Razão
Meu nome é Lucas, e se você está ouvindo isso, significa que eu, bem, eu sobrevivi. Ou não. Ainda não tenho certeza. Essa gravação deveria ser mais um episódio do meu canal, ‘Mitos Urbanos Desmascarados’, mas acabou virando outra coisa. Uma confissão, talvez. Um aviso.
Tudo começou com a Lenda da Loira do Banheiro. Velha. Clássica. Uma das mais famosas lendas-brasileiras que a gente ouve desde criança. Sempre me pareceu bobagem, mais uma forma de aterrorizar crianças em acampamentos ou festas do pijama. Mas a internet, ela adora um bom fantasma, né? E os comentários no meu último vídeo não paravam: ‘Vai no banheiro da escola abandonada! Invoca a Loira!’
Eu queria visualizações. Precisava delas. Meu canal patinava, e a ideia de provar que essas lendas-urbanas são só histórias velhas parecia uma mina de ouro de conteúdo. A antiga Escola Municipal São Judas, fechada há dez anos, era o cenário perfeito. Ou, pelo menos, foi o que eu pensei.
Era uma noite de sexta-feira, daquelas abafadas de outono, com cheiro de chuva que não vem. O céu estava carregado, mas nenhuma gota caía, apenas uma pressão estranha no ar. A lua, uma lasca fina e amarelada, mal furava a névoa que pairava baixa sobre a cidade. Eu tinha conseguido a chave com o velho zelador, seu Osvaldo, que mal enxergava e mal ouvia. ‘Ah, o senhor vai lá ver se não tem rato, né, meu filho?’, ele murmurou, me entregando um molho enferrujado. Rato. Se ele soubesse…
O prédio parecia engolir o som. A cada passo, o eco da minha bota no piso empoeirado da antiga escola era amplificado, reverberando pelos corredores escuros. Lâmpadas quebradas, carteiras viradas, teias de aranha penduradas como véus macabros. Eu estava com a câmera do celular ligada, gravando tudo para o canal. Tentava manter a voz firme, um tom de ironia controlada.
‘E aí, galera? Lucas de novo na área, e hoje, a gente vai desmistificar mais uma dessas historinhas que a vovó contava pra assustar a gente. Estamos na antiga São Judas, e segundo a lenda, o banheiro feminino do segundo andar é o lar da Loira. A gente vai descobrir se ela tira fotos, manda áudio no zap, ou se ela é só uma lenda que precisa ser aposentada.’
Minha lanterna cortava a escuridão, revelando pichações antigas, desenhos infantis desbotados. O cheiro de mofo, poeira e algo indefinível, um odor doce e azedo, pairava no ar. Cheguei ao segundo andar. O corredor para os banheiros era mais escuro, janelas quebradas permitindo que rajadas de vento frio entrassem, fazendo as portas rangerem. A cada ranger, um calafrio percorria minha espinha, mas eu me forcei a rir, a agir como se estivesse no controle.
‘Olha só, o cenário é perfeito. Típico filme de terror clichê. Só falta a mocinha tropeçar e o assassino aparecer. Mas hoje, a gente é o mocinho, e o assassino, ou melhor, a assombrada, vai ser desmascarada.’
A porta do banheiro feminino estava entreaberta. Um rangido seco ao empurrá-la. O ambiente lá dentro era ainda mais sufocante. Azulejos esverdeados pela umidade e limo, vasos sanitários quebrados, grafitis ofensivos nas paredes. E, claro, o espelho. Rachado no canto superior, embaçado, parecia ter capturado a escuridão de mil noites.
Eu respirei fundo, posicionando o celular no parapeito da janela, focando no espelho. ‘Beleza, pessoal. A lenda diz que você tem que ir no banheiro, apagar as luzes – se tivesse alguma pra apagar aqui, né? – dar três descargas, bater na porta três vezes e chamar a Loira do Banheiro. Então, vamos ao protocolo.’
A primeira descarga. O barulho da água correndo pela tubulação enferrujada pareceu ensurdecedor no silêncio opressor. Um ruído gutural, como se o prédio estivesse gemendo. Eu senti um frio súbito na nuca, apesar do clima abafado.
‘Tudo tranquilo, galera. Nenhum sinal de fantasma fashion por aqui.’ Minha voz soava mais forçada agora.
A segunda descarga. O som foi mais longo, mais arrastado. Um estalo veio do fundo do corredor, como se alguém tivesse pisado em vidro. Eu girei a cabeça, a lanterna varrendo a escuridão. Nada. Só as sombras dançando.
‘Deve ter sido o vento’, murmurei, mais para mim do que para a câmera. Mas não havia vento lá dentro.
A terceira descarga. Dessa vez, o barulho da água foi acompanhado por um sussurro quase inaudível, que parecia vir de dentro das paredes, ou talvez, do próprio ralo do vaso. Um sussurro gelado, que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. Minhas mãos suavam.
‘Ok, isso foi… diferente’, eu disse, tentando soar casual. ‘Mas ainda nada. Agora, as batidas na porta.’
Bati na porta três vezes, um som oco e pesado. Toc. Toc. Toc. O silêncio que se seguiu foi o mais denso de toda a minha vida. Um silêncio que parecia sugar o ar dos meus pulmões. O cheiro adocicado e azedo no ar ficou mais forte, quase nauseante. E então, o espelho.
O espelho embaçou. Não de vapor, mas como se uma camada fina de névoa esbranquiçada o cobrisse por dentro. Eu franzi a testa. Isso não estava planejado. Tentei limpar com a mão, mas era inútil. A névoa se dissipava lentamente, revelando… não o meu reflexo.
Era uma figura. Uma sombra esguia, com longos cabelos loiros emaranhados, caindo sobre um rosto pálido e angular. Os olhos eram fundos, sem vida, poços escuros que pareciam me encarar de uma profundidade abissal. Ela usava um vestido branco, manchado e rasgado, que parecia absorver a pouca luz do ambiente. Um braço se ergueu lentamente, um movimento lento, macabro, e um dedo longo e fino apontou para mim, atrás do meu ombro, no reflexo.
Minha respiração travou na garganta. Meu coração martelava contra as costelas. Eu tentei me virar, mas meu corpo não obedecia. O medo me paralisava, me pregava no chão sujo. Não era um truque de luz. Não era a minha imaginação. Ela estava ali. A Loira do Banheiro era real.
No reflexo, o rosto dela se contorceu, os lábios pálidos se abriram em um sorriso que não carregava alegria, mas uma fome antiga e gelada. E então, o sussurro voltou, mais claro agora, vindo de todas as direções, preenchendo meus ouvidos, penetrando em cada célula do meu corpo.
‘Você… me… chamou…’
Meu celular, ainda gravando, capturou o som de algo caindo no chão, um ruído seco. Foi o momento em que minhas pernas cederam. Eu caí, a lanterna rolando para longe, mergulhando o banheiro em uma escuridão quase total. A última coisa que vi, antes que a tela do celular escurecesse, foi o rosto da Loira, agora tão perto, que eu podia sentir o hálito gélido e com cheiro de terra na minha pele. Seus olhos, antes escuros, agora brilhavam com uma luz fraca e maligna.
Eu não sei o que aconteceu depois. A gravação parou. Acordei horas depois, jogado no corredor da escola, o corpo doendo, a mente confusa. Meu celular estava espatifado ao lado. Consegui resgatar o áudio, o único registro daquela noite.
Agora, quando ouço de novo, eu não consigo deixar de notar o final. Não é apenas o som da minha queda. Há um chiado, e depois, uma risada. Uma risada fria, que não era a minha.
Não importa quantas visualizações meu canal consiga agora. Algumas lendas-urbanas são melhor deixadas quietas. Algumas lendas-brasileiras são mais do que apenas histórias. Elas são avisos. E o espelho, ele não quebrou só no canto. Ele quebrou a minha razão.
Fiquem longe de espelhos velhos e escolas abandonadas. Principalmente se o chamado for pela Loira. Ela atende. E ela gosta de visitas.
